"CHIQUE É CRER EM DEUS"

Investir em conhecimento pode nos tornar sábios... Mas, Amor e Fé nos  tornam humanos!

Coisas que todos os catequistas novatos deveriam saber

Catequese é algo fundamental para a Igreja e não se pode improvisar. Por isso, aqui vão algumas coisas básicas que você não pode esquecer.

O catecismo responde.

Respostas sobre dúvidas sonbre o Sacramento do Batismo

CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK

Clique aqui: https://www.facebook.com/catequeseregionalnordeste3

Especial sobre Quaresma

Encontre aqui tudo que já publicamos sobre esse tempo.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Festa da Sagrada Família


Lucas 2, 41-52
Na Igreja Católica, hoje é celebrada a festa da Sagrada Família. Portanto, o trecho de Lucas põe em relevo os três membros da família de Nazaré; mas, tem como o seu tema principal, um ensinamento sobre quem é Jesus, a sua relação ao Pai e à sua família humana.
A história começa enfatizando a identidade da família humana de Jesus como judeus piedosos. Os regulamentos sobre as peregrinações ao Templo de Jerusalém, para a festa de páscoa, se encontram em Êx 23, 17; 34.23; Lv 23, 4-14. Como consequência, entendemos que o ambiente em que Jesus cresceu e em que descobriu a sua vocação e missão é aquele dos “pobres de Javé”, os devotos que esperavam a libertação de Israel, através da vinda do Messias davídico prometido. Essa viagem prefigura a grande viagem de Jesus a Jerusalém em Lc 9, 51 - 19, 27, que Ele fará com os seus discípulos, e onde Ele revelará por palavras e ações o seu relacionamento com o Pai, prefigurado aqui no versículo 49.
O texto salienta certas atitudes de Jesus. É bom prestar bem atenção aos verbos. Lucas diz que Jesus estava no templo entre os doutores: “escutando e fazendo perguntas.” (v. 46)
A atitude de Jesus é a de um aluno muito inteligente, e não de um mestre. Ele não está “ensinando no Templo”, como muitas vezes dizemos em nossas tradições. Aqui, Lucas antecipa para os doze anos o que realmente ocorrerá mais tarde, quando Jesus realmente ensina no Templo, e sofre a rejeição e a perseguição por parte dos doutores da Lei e Sumos Sacerdotes.
O ponto central do texto se acha em versículo 49: “Por que me procuravam? Não sabiam que eu devo estar na casa do meu Pai?”
Aqui Lucas relata as primeiras palavras de Jesus no Evangelho. Agora não é Gabriel, nem Zacarias, nem Maria quem diz quem é Jesus, mas Ele mesmo. A palavra que nos traduzimos como “devo”, em grego “dei”, transmite o tema de “necessidade”, que aparece no Evangelho 18 vezes e nos Atos dos Apóstolos 22 vezes, e “expressa um senso de compulsão divina, frequentemente visto como obediência a uma ordem da Escritura ou profecia, ou na conformidade de eventos com a vontade de Deus. Aqui a necessidade consiste no relacionamento inerente de Jesus a Deus que exige obediência.” (Marshall - “The Gospel of Luke”)
Em versículo 50, fica patente que os seus pais não entenderam que o seu relacionamento com o Pai celeste tomava precedência sobre a sua relação com eles: “Eles não compreenderam o que o menino acabava de lhes dizer.”
A “espada”, a dor de sentir este distanciamento, sem poder compreendê-lo de que falou Simeão em 2, 35, já começa a aparecer. Maria não compreende plenamente, retomando o tema de v. 19, e tem que continuar a sua caminhada de fé, meditando sobre o sentido e identidade do seu filho. Fato encorajador para nós. Quantas vezes acontecem coisas nas nossas vidas que não compreendemos, nem conseguimos ver a vontade de Deus. A exemplo de Maria e José, aceitemos esta escuridão, continuemos a caminhada, mas nunca deixemos, numa atitude de oração de contemplação, “conservar no nosso coração todas essas coisas”!
- - -
Pe. Tomaz Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Missa do Dia: Jo, 1, 1-18


“O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós”

Embora sejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente ao nascimento do Salvador em Belém, na realidade o Evangelho da Missa do Dia, tirado do prólogo de João, nos traz o sentido profundo dos eventos do primeiro Natal.
O texto gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra” – “Logos” em grego. Enquanto Marcos somente começa o seu relato do Evangelho de Jesus com o seu batismo e Lucas e Mateus remontam até a sua concepção, o Quarto Evangelho liga Jesus à sua preexistência, desde o começo:
“No princípio já existia a Palavra, e a Palavra estava com Deus. E a Palavra era Deus. A Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós.” (1, 1.14)
Mesmo que se expresse sobre Jesus em termos não tão familiares para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição do Antigo Testamento. Embora use a palavra grega “Logos”, para expressar a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não está uma discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos gregos, mas muito mais o sentido teológico do termo hebraico “Dabar”, que indica a Palavra criadora, congregadora e libertadora de Deus, expressão do Deus de amor de libertação.
O projeto de Deus acontece quando essa palavra se fez homem, armou a sua tenda (ou acampou) entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen” deriva-se do termo “skêne, que significa uma tenda de campanha. Na visão do Quarto Evangelho, A Palavra, o Verbo Divino, “armou sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo”! Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja, aonde o povo anda, lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré. N’Ele e por Ele a Palavra Criadora age, operando a salvação aqui na terra. Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão e projeto.
Mas, essa encarnação tornou-se o divisor das águas para a humanidade. Pois. “Veio aos seus e os seus não a acolheram”. Assim, o texto desafia qualquer acomodação que porventura possa existir entre os cristãos, pois “acolher” a Palavra encarnada não é em primeiro lugar uma crença intelectual; mas, o assumir de um projeto de vida, o seguimento de Jesus de Nazaré. É uma adesão radical à pessoa e missão de Jesus, continuada em nós hoje. Como diz o Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que me disser “Senhor, Senhor!” entrará no reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21).
O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento de Jesus, e nos diz: “Aos que a receberam, os tornou capazes de ser filhos de Deus; os que creram n’Ele, os que não nasceram do sangue, nem do desejo da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus” (Jo 1, 12s).
Que a celebração da grande festa de hoje nos confirme na nossa fé, nesse Deus que se encarnou entre nós, “tomando a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2, 7) e como resultado dessa renovação espiritual nos encoraje para continuarmos na luta para criar o mundo que Deus quer - de justiça, solidariedade e fraternidade, no caminho do Reino, onde “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Como nos diz Hebreus: “Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumidor da fé... Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus”(Hb 12, 1-3)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Missa da Aurora


Lc 2, 15-20

Apesar de a mensagem de Lucas ser hoje quase abafada pela euforia do consumismo e materialismo, que transforma a grande festa cristã do Natal do Senhor numa verdadeira orgia pagã de esbanjamento e exclusão, a história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas de Lucas, perdura ainda com a sua mensagem profunda de paz, união, solidariedade e amor, que o néo-paganismo pós-moderno da nossa sociedade é incapaz de ofuscar.
As Missas da vigília e da aurora usam dois textos contínuos de Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande beleza, através da sua habilidade literária. Lucas pega as tradições que põem a origem de Maria e José em Nazaré e juntou-as às que colocam o nascimento de Jesus em Belém, e as insere na história humana e universal, através das suas referências a grandes figuras históricas da época: César Augusto, Herodes o Grande e o governador da Síria, Quirino. Nesse contexto, ele tece uma rede que contém oito dos seus temas preferidos - alimento, graça, alegria, pequenez, paz, salvação, “hoje”, e, universalismo, para trazer à humanidade de todos os tempos “uma boa notícia, uma alegria para todo o povo” (2, 10).
Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicas em Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento feito por Augusto, a finalidade de Lucas é situar o nascimento do Salvador bem dentro da história humana, e especialmente a história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forçados a sair da sua casa pela força opressora do império, pois, a finalidade de um recenseamento era alistar todos para a cobrança de impostos. Assim, o Messias nasce em condições subumanas e indignas, como nascem e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa sociedade atual. Como não teve lugar para eles na “hospedaria” (um tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio, no primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar dormitórios, algo ainda comum em certas regiões do Oriente hoje), Maria dá à luz numa gruta ou estrebaria e deita Jesus numa manjedoura.
Logo, Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da religião e sociedade de então, os pastores. No tempo de Jesus eram considerados como delinquentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem; por isso, não mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história: o nascimento e a ressurreição do Salvador. O Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluía, enquanto a maioria da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos templos de consumo de hoje, os Shoppings, onde pessoas pobres são excluídas do banquete de poucos. Que contradição!
É importante também por em relevo a mensagem dos anjos: “Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v. 14). Aqui Lucas cria um binômio: dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexão teológica, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalom”, que não se limita a uma mera ausência de violência física, mas inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto, o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso esforço em criar um mundo de Shalom, onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância!” (Jo 10, 10)
É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se” (v. 18), “Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu íntimo” (v. 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn 37, 11 e Dn 4, 28, para descrer a perplexidade íntima de uma pessoa que procura entender o significado profundo de um fato. Assim, Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo o sentido do que ouviu, mas meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos; se tornou peregrina na fé, modelo para todos nós, nos convidando a nos mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós hoje.
A festa de Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação. Mas, se fizermos d’Ele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico, familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos do ter e do prazer, tão bem promovidos pelo marketing dos Shoppings. Mas, retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos o motivo de uma verdadeira “alegria para todo o povo”: nasceu para nós o Salvador!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Missa da Noite do Natal


Lc 2, 1-14

Essa passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através dessas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje”, e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!
Esse trecho pode ser subdivido assim:
1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus: 2, 1-7
2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus: 2, 8-14
3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos: 2, 15-20
A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim, ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é, na verdade, o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros da força militar prepotente - a “Pax Americana”! Essa revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!
Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios, até o boi e o asno tomaram banho! A realidade de nascer numa gruta ou estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens! (1Cor 1, 25).
Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas dessa cena são os pastores. Na época, eles eram considerados pessoas desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. Mas, é para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus e igualmente são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!
O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas: “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje”, não numa data futura distante. Essa ideia volta diversas vezes: na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4, 21); a Zaqueu, Jesus afirma que “hoje a salvação entrou nessa casa” (18, 9); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estará comigo no paraíso” (23, 43). O Reino da Salvação está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social, e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Numa manjedoura e não num palácio imperial! Por parte de quem carece de força e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!
Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia complementa o que foi já anunciado à Maria em 1, 31-33, por Maria em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significativo o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus. Maria não capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A ideia volta de novo em Lc 2, 51: “Sua mãe conservava no coração todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou e que todos nós, que não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas; teremos que andar.
O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados, personificados nos pastores, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido” (v. 20). Qualquer celebração de Natal que não dê para os oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã! 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

QUARTO DOMINGO DO ADVENTO


Lucas 1,39-45
“Bendito o fruto do seu ventre!”

Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste, e também a continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista, e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada; os seus símbolos são Isabel, estéril e idosa; Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio do anjo; e o neném que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo (Lc 2, 25-38), quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz porque meus olhos viram a tua salvação.” (2, 29)
Assim, não devemos reduzir o texto de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parente idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse mostrar Maria como modelo de caridade, não teria colocado versículo 56, que mostra ela deixando Isabel na hora de maior necessidade: “Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa.”
Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a de Galiléia à Judéia! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela Sua ação nas suas vidas, e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro lado, Maria, José e Jesus.
O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução da Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João no seu ventre - é porque Maria está carregando o Senhor. As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo, no Antigo Testamento: Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jd 13, 18). Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.
Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou.” Maria é bendita em primeira lugar, não pela sua maternidade somente, mas pela fé, em contraste com Zacarias, que não acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente como modelo de fé. Notemos que neste capítulo primeiro nós encontramos - na Bíblia - frases que podem fundamentar uma compreensão correta da visão bíblica da pessoa e função de Maria, que pode unir em lugar de dividir cristãos das diversas confissões: “Ave Maria” (1, 28); “Cheia de graça” (1, 28); “O Senhor é convosco” (1, 28); “Bendita sois vós entre as mulheres” (1, 42); “Bendito o fruto do vosso ventre” (1, 42). Lucas nos apresenta a mãe do Senhor como modelo de fé para todos nós!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

E a Ternura se fez criança e viveu entre nós


Para rezar e meditar em grupos, com os catequistas, com as pastorais...


(providenciar um pequeno presépio e colocá-lo no centro da sala)

1. Saborear a Ternura de Deus

Com.: Mais um ano se passou e outro já se anuncia. Viajamos por desertos de dores, solidão, angústias, medos, mas também por oásis de alegrias, realizações, amizades, amores, na labuta diária da vida. Trazemos as marcas dessa “viagem”, poeiras e cansaços...

D: Mas, um Menino nos foi dado! Surge a esperança de que tudo pode ser modificado, de que o Novo pode irromper.

Todos: E a Ternura  se fez criança e viveu entre nós!

D: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz...” (acendem-se as velas)

Todos: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre homens e mulheres a quem Ele quer bem”.

2. Saborear a Suavidade do Senhor

L1: “Havia naquela região pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor lhes apareceu, e a glória do Senhor os envolveu de luz. Os pastores ficaram com muito medo. O anjo então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor! E isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura”.

Todos: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre homens e mulheres a quem Ele quer bem”.

Com.: No presépio, a “criança” tem um brilho especial. Ao redor do Menino-Jesus se cria uma ordem mágica, um centro luminoso que irradia sobre todas as coisas constituindo um todo coerente e significativo. A vida com suas contradições é iluminada pela luz que se irradia do Presépio.

(convidar a lembrar a vida, projetos, sonhos, angústias, medos, contradições... o que precisa ser iluminado pelo Menino...)

3. Saborear a fragilidade e a pequenez como plenitude

Com.: No Natal, por causa da Divina Criança, nos é permitido esquecer as amarras e os erros cometidos para sentirmo-nos livres para começar de novo. Os sonhos escondidos e nunca realizados podem vir à tona e ser de novo alimentados. Podemos aliviar um pouco o peso do próprio passado e formular um bom propósito.            

D: Querido Deus, Luz de nossas vidas. Acreditamos que é possível começar de novo e, mais que isso, queremos nascer de novo. Inspirados pelo Teu Filho, nosso Menino Jesus, podemos arriscar o primeiro passo ou inaugurar um outro olhar sobre o caminho já andado e nele descobrir novo significado... Queremos costurar nossos sonhos no sonho do Teu Menino: um mundo novo, cheio de amor e paz.     

 (Estendendo a mão direita colocam-se no presépio os sonhos, esperanças, desejos... )

Todas: Deus de ternura e bondade, que assumindo nossa carne no seio de Maria, compreendeste a fraqueza humana... Recebe nossos sonhos e desejos e ilumina nossos passos para trilhar os caminhos do Amor, da Paz e da verdadeira Fraternidade. Amém!

Benção:

D: O Deus, Fonte da Vida Nova, nos renove na alegria da Sua luz, agora e para sempre!

Todos: Amém!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Caríssimos coordenadores diocesanos, paz e bem!


Mais um ano se passou e outro já se anuncia. Viajamos por desertos de dores, solidão, angústias, medos, mas também por oásis de alegrias, realizações, amizades, amores, na labuta diária da vida. Trazemos as marcas dessa “viagem”, poeiras e cansaços...

Mas, um Menino nos foi dado! Surge a esperança de que tudo pode ser modificado, de que o Novo pode irromper.

Celebrar o Natal é celebrar a certeza que não estamos sozinhos, que Deus está conosco, veio morar entre nós! Nesta certeza desejamos a todos um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de realizações!
Seguem em anexo alguns encaminhamentos para 2013:

·        Cronograma de encerramento da Escola Bíblico-catequética Dom Jairo – (Em janeiro de 20 a 26 teremos o ultimo módulo dessa 3ª turma);

·       Folder da Escola Bíblico-catequética Dom Jairo (a 4ª turma inicia em julho – cada coordenador diocesano tem o compromisso de escolher os novos participantes);

·        Calendário de atividades (é bom olhar com atenção e reservar a data de 17 a 19 de maio – Encontro regional das coordenações diocesana);

·        Segue também uma simples celebração de Natal (um momento orante para os catequistas);

·        E por ultimo um resumo sobre os catequistas e o Ano da Fé.

 OBS: Se alguém de vocês desejarem participar da festa de encerramento da escola será muito bem vindo, mas pedimos que nos comunique com antecedência.

 Uma solicitação:
Estamos esperando a o Calendário de Programação da Dimensão Bíblico-catequética de cada diocese. É importante socializarmos as varias atividades que acontecem no regional. Dessa maneira também facilita a participação e sintonia com os serviços.
Atividades diocesanas já previstas até agora para 2013: 

Aracaju – 14/04 V Missão Bíblico-catequética e de 20 a 22/09 II Congresso Bíblico Catequético.
Juazeiro – 07 a 12/01 Inicio da II turma da Escola Bíblico-catequética.

Salvador – 04 a 10/03 Semana Bíblico Catequética.

 Aproveitamos também a oportunidade para agradecer por todo serviço realizado na Dimensão Bíblico Catequética em cada diocese. Que menino Deus abençoe e proteja cada um cada uma de vocês.

Cordialmente,

Ir. Luciene Macedo

Salvador-BA, 12/12/12

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO


Lucas 3, 10-18
“Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”

Essa passagem trata da pregação de João Batista, que: “Percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados.” (v. 3)
O início do texto de hoje, versículos 10-14, que constam somente em Lucas, mostra bem a sua teologia e contexto - não são os líderes religiosos que não querem arrepender-se, - mas o povo comum, e até pessoas que estavam à margem da sociedade, como cobradores de impostos e soldados. Mais adiante no Evangelho, são estas as pessoas que vão responder positivamente diante da pregação do próprio Jesus. Escrevendo para as comunidades pelo ano 80-85 d.C., Lucas quer lembrar aos cristãos que eles também devem estar abertos para achar sinceridade e bondade fora das vias “aceitáveis” como fizeram João e Jesus!
A frase lapidar do trecho é a pergunta que os diversos grupos formulam para João: “O que devemos fazer?” Essa pergunta aparece mais vezes no Terceiro Evangelho, em Lc 10, 25 (na boca de um doutor da Lei) e Lc 18, 18 (uma pessoa importante), e também nos Atos dos Apóstolos: At 2, 37 (os judeus depois da pregação do Pedro), At 16, 30 (o carcereiro gentio de Filipos), At 22, 10 (Saulo, o perseguidor). Usando esse artifício, Lucas quer salientar que é uma pergunta que tem que ser feita constantemente durante a nossa caminhada. Não há cristão que possa se dispensar de fazê-la sempre, por achar que já sabe a resposta.
É interessante que João, embora uma pessoa de cunho fortemente ascético, não exige sacrifícios, ou práticas religiosas como jejum e abstinência. Ela enfatiza uma exigência muito mais radical, que atinge o cerne do nosso ser - uma preocupação com os mais pobres, manifestada na busca de justiça e solidariedade. As Campanhas da Fraternidade seguem essa linha de João, pois muitas vezes é mais fácil abster-se de uma carne ou de uma bebida do que engajar-se na luta por um mundo melhor.
Esse trecho traz à tona mais uma vez um dos temas principais do Evangelho de Lucas: o uso correto dos bens materiais. No fundo, João aqui prega antecipadamente o que mais tarde Jesus vai ensinar: a partilha dos bens com as pessoas que sofrem necessidades, a justiça nos relacionamentos econômicos e políticos, a conversão que se manifesta numa mudança radical da vida.
A segunda parte da passagem insiste que João é inferior a Jesus. João batiza com água como agente de purificação, mas Jesus usará a força purificadora maior do Espírito Santo e do fogo. Lucas vai mostrar em Atos 2 - na história de Pentecostes - como o fogo do Espírito Santo cumpre a sua missão nas pessoas.
E o texto termina com a declaração que “João anunciava a Boa Notícia ao povo de muitos outros modos” (v. 18). O que João prega é tão semelhante ao que Jesus pregará que também merece ser taxado de “Boa Notícia”. A boa notícia da chegada da misericórdia e da salvação de Deus de uma forma gratuita, mas que exige resposta de cada pessoa. É a crise existencial do mundo todo - aceitar ou rejeitar a salvação oferecida gratuitamente em Jesus. E para Lucas, essa decisão tem que ser renovada sempre, através da pergunta “o que devemos fazer?”, enquanto continuamos andando “pelo caminho”!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO


Lucas 3, 1-6
“Esta é a voz de quem grita no deserto: preparem o caminho do Senhor”


Atrás das informações históricas deste texto, referentes às autoridades seculares e religiosas que teriam influência nos primórdios do cristianismo, jaz a realidade trágica da resposta negativa deles à Palavra de Deus e aos seus mensageiros, João o Batista, e Jesus, o Cristo! Na pessoa do Pôncio Pilatos, a autoridade romana vai agir na decisão de assassinar o Messias; entre os governantes da Palestina, Herodes Antipas aparece diversas vezes no Evangelho, sempre com juízo negativo, e será o responsável pela morte de João, além de estar presente no sofrimento de Jesus na Semana Santa; Anás (Sumo Sacerdote de 6 - 15 d.C) e o seu genro Caifás (Sumo Sacerdote de 18-37 d.C) só funcionam porque os romanos permitiam e realmente foi a eles que serviam. Os sumos sacerdotes sempre serão hostis a Jesus e à sua pregação e no fundo eram eles os responsáveis pela Sua morte.
No meio deste elenco de poderosos corruptos e perseguidores, Deus manda João, o Batista, como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade. Essa será mais tarde a mensagem básica do Apocalipse; o mal já é um derrotado, e embora possa parecer diferente, é Deus, e não a maldade, que controla a caminhada da história. Mensagem de conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século. Mas, esta vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz!
Lucas põe na boca de João um trecho de Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus.” (v. 4-6)
Sem dúvida, podemos entender esse trecho num sentido metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento. Os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados, simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento mais radical e coerente de Jesus. Quem aceita a sua mensagem terá que mudar radicalmente - isso é, na raiz - a sua vida.
O último versículo: “E todo homem verá a salvação de Deus” (v. 6) faz eco ao tema lucano da universalidade da salvação, usando essa frase que não se encontra no texto paralelo de Mc 1, 3. Ninguém é excluído da mensagem e oferta da salvação. Mas a resposta depende de cada um de nós!
O Advento, embora não seja tempo de penitência no sentido que é a Quaresma, se torna tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas, e pedras que teremos que tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos nossos corações.

domingo, 2 de dezembro de 2012

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO


Lucas 21, 25-28.34-36
“A libertação de vocês está próxima”

            Neste primeiro domingo do Ano Litúrgico, Lucas nos mergulha em um dos discursos escatalógicos do seu Evangelho. Sendo assim, usa imagens e símbolos que não são da nossa cultura e época, e por isso nem sempre são fáceis a serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura apocalíptica não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente - o mais importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro - não cada imagem e símbolo, mas, a sua mensagem de conjunto.
            O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem” - o título que nos Evangelhos Jesus mais usava para Si mesmo, e que nós pouco usamos. Este título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha alguém como um filho de homem... Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído.” (Dn 7, 13s)
            Então, Jesus recorda aos seus discípulos a mensagem de ânimo que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a.C. - que embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores, sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, através do seu Ungido - o Filho do Homem - revelará o seu poder, e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora em Jesus!
            Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota medo nos ouvintes é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é de animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central do nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima.” (v. 28)
            Este trecho tem uma dimensão fortemente cristológica - nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em controle todas as forças, sejam elas de guerra (v. 9) ou do mar - símbolo de forças indomáveis na literatura judaica da época (v. 25). O versículo acima citado traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos malvados (v. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem.
            Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem cuidar muito para que: “Os corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida.” (v. 34)
            Pois, é fácil assumir as atitudes do mundo, sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força.” (v. 36)
            O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos o tempo todo para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos as nossas forças, para não cairmos na armadilha da “desatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que os nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, através dos irmãos e irmãs, no nosso dia a dia!

domingo, 25 de novembro de 2012

A Bíblia na vida e na pastoral da Igreja


“Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça. Assim, a pessoa que é de Deus estará capacitada e bem preparada para toda boa obra” (2Tm 3,16-17).
Ultimamente os pastores da Igreja têm conclamado todos os católicos a fazerem da Sagrada Escritura a referência para sua vida e sua ação pastoral. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) para os anos 2011 a 2015, afirmam: “Alimentando, iluminando e orientando toda a ação pastoral, a Bíblia transborda para a totalidade da existência de pessoas e grupos, tornando-se luz para o caminho (cf. Sl 119,105)” [DGAE 29].
Esta afirmação insiste no fato de que a Palavra de Deus que encontramos na Sagrada Escritura alimenta, isto é, nutre, sustenta, fortalece nosso agir, dá-nos aquilo de que precisamos para nosso caminho como discípulos-missionários de Cristo. Também ilumina, clareia, mostra a estrada. E além do mais, guia o nosso agir como bússola que norteia nossa trilha. Alimentar, iluminar e orientar são três funções da Bíblia na ação pastoral da Igreja, a comunidade de fé.
Como é bom recordar que pastoral deriva da imagem do pastor e se inspira no modo de agir de Deus: “Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei a desgarrada, enfaixarei a quebrada, fortalecerei a doente e vigiarei a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito” (Ez 34,16). É esta a imagem ideal do pastor que nossa ação pastoral é chamada a refletir.
O Salmo 23 é uma oração de confiança absoluta no Senhor como pastor: “O Senhor é meu pastor, nada me falta. Ele me faz descansar em verdes prados, a águas tranqüilas me conduz. Restaura minhas forças, guia-me pelo caminho certo...”. O salmista confia porque sabe, por experiência, que Deus ama e cuida.
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). Eis aí a expressão máxima de ação pastoral: dedicar a vida ao serviço a exemplo do Senhor: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” ().
Nossa ação pastoral será frutuosa na medida em que nos deixarmos conduzir pela Palavra de Deus na Sagrada Escritura, que é útil para instruir, argumentar, corrigir e educar, como nos diz a segunda carta a Timóteo. Ela nos preparará para exercemos nossa missão pastoral com segurança, competência, mística, dedicação e alegria.
Estejamos atentos para não confundir os frutos da ação pastoral com o sucesso, os resultados grandiosos, que nos enchem de orgulho e satisfação. Nossa missão na pastoral é lançar a semente. Os frutos da semente dependem do Senhor da messe. O apóstolo Paulo já havia advertido os coríntios: “[...] A cada um o Senhor deu sua tarefa: eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer. [...] Importante é aquele que faz crescer: Deus. [...] Pois nós somos colaboradores de Deus, e vós, lavoura de Deus, construção de Deus” (1Cor 3,5-9).
Este é o caminho que a Sagrada Escritura nos aponta para realizar nossa ação pastoral. Não nos preocupemos com os resultados, mas com a fidelidade à nossa missão, inspirando-nos no Senhor, o bom pastor.

Pe. Videlson Teles de Meneses
Coordenador da Animação Bíblica da Pastoral da Arquidiocese de Aracaju-SE

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

FESTA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO (25.11.12)


Jo 18, 33b-37

“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”

Como é de costume na Igreja Católica, hoje, o último domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as conseqüências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa – que Deus é o único Absoluto. Em um mundo que não é ateu, mas idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas – para descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas vidas.
O texto é tirado da paixão segundo João – o diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típico, João faz com que Pilatos – o representante do poder absoluto da época, o Império Romano - apresenta Jesus como Rei, o que ele é na verdade, mas não da maneira que Pilatos possa entender. O Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império Romano – não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha , o Reino do Deus da Vida.
É exatamente por ter semeado este Reino que Jesus deve morrer – aliás não morrer, mas ser matado, o que é diferente. Pilatos – como acontece nos outros Evangelhos também – demonstra isso quando ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo a sua morte. Não foi o povo, mas os sumos sacerdotes que o entregaram (v. 35). É importante entender o que isso significa, pois se Jesus foi matado, houve algum motivo, e houve alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. OTemplo funcionava como Banco Central, centro de arrecadação de impostos, e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político, econômico e religioso,
coniventes com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois o Reino de Deus se opõe frontalmente com qualquer reino opressor, como era o de Roma.
A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na construção de um Reino de justiça e paz, do shalôm de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e da injustiça. Normalmente esses poderes primeiro vão tentar cooptar a igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. Não faltarão incentivos, monetários e outros, para que as Igrejas caiam nesta cilada. Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é mister ficarmos sempre vigilantes, para verifiquemos se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de César.
Para João, Jesus traz a grande crise da história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante dele, não há lugar para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência – tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo de uma maneira disfarçada ou inconsciente, continua sendo César!


Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br


terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Animação Bíblica da Liturgia




A Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II (1962-1965), afirma que “a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor, já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar toma da mesa tanto da palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo o pão da vida, e o distribui aos fieis” (DV 21).
Historicamente, porém, constatamos que a reverência em relação à Eucaristia é muito maior. Há um cuidado especial em relação à presença de Jesus no Santíssimo Sacramento que não se verifica quanto à presença de Jesus, a “Palavra que se fez carne”, na Sagrada Escritura. A Bíblia, em geral, não tem um lugar de honra e destaque em nossas igrejas. E, muitas vezes, não se trata a Palavra sagrada com veneração, substituindo o Lecionário por folhetos e livros descartáveis.
Penso que podemos começar a animação bíblica da vida e da pastoral de nossas comunidades cristãs pela liturgia. O Concílio Vaticano II enfatizou a importância da Sagrada Escritura, incluindo em cada celebração sacramental a leitura e explicação da Palavra do Senhor. Precisamos valorizar todas as celebrações litúrgicas e a proclamação da Palavra de Deus que está prevista em cada uma delas: “Cristo está presente pela sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja” (Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 7).
Como seria bom que o Ministério da Palavra fosse apreciado e contasse com pessoas devidamente preparadas. Aqui cabe mais uma vez uma comparação com a Eucaristia. Que bom termos ministros extraordinários da comunhão eucarística bem preparados, que aprendem a exercer sua missão com amor e competência. Não seria adequado fazermos o mesmo quanto à proclamação da Palavra na liturgia?
O primeiro passo é preparar a assembléia litúrgica para escutar a Palavra de Salvação que nos é dirigida em cada celebração sacramental. Uma atitude de reverência à voz do Senhor que nos fala se manifesta no silêncio atento: “E Samuel não deixava sem efeito nenhuma das palavras do Senhor” (ver 1Sm 3,19).
Faz-se necessário preparar leitores aptos a anunciar a Palavra de Deus nas celebrações. Como é triste ver pessoas sem a devida preparação ler o texto bíblico sem expressão, sem vida. Onde fica o anúncio da Palavra do Senhor, quando não compreendemos palavra alguma? Ler não é decifrar e juntar letras, palavras e frases! Ler é compreender! Só pode ler bem em público quem entende o que lê. O papa Bento XVI, na exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, quando trata da proclamação da Palavra e do ministério do leitorado, afirma: “A formação bíblica deve levar os leitores a saberem enquadrar as leituras no seu contexto e a identificarem o centro do anúncio revelado à luz da fé. A formação litúrgica deve comunicar aos leitores uma certa facilidade em perceber o sentido e a estrutura da liturgia da Palavra e os motivos da relação entre a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística. A preparação técnica deve tornar os leitores cada vez mais idôneos na arte de lerem em público tanto com a simples voz natural, como com a ajuda dos instrumentos
modernos de amplificação sonora” (VD 58). Biblistas, liturgistas e técnicos em comunicação social podem contribuir na preparação de todos os ministros da Palavra para atuar nas diversas celebrações: batismo, eucaristia, matrimônio... Sem esquecer as celebrações da Palavra.
O cuidado com a homilia também foi assunto do Sínodo sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja, realizado em outubro de 2008. O papa retomou este assunto na Verbum Domini, n. 59: “pensando na importância da palavra de Deus, surge a necessidade de melhorar a qualidade da homilia; de fato, esta constitui parte integrante da ação litúrgica, cuja função é favorecer uma compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fieis. A homilia constitui uma atualização da mensagem da Sagrada Escritura”.
Que o Senhor nos inspire e guie nossos passos, a fim de que tenhamos coragem de realizar a conversão pastoral de que necessitamos para colher os frutos no devido tempo: “... a Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força” (Sacrosanctum Concilium, n. 10).

Pe. Videlson Teles de Meneses
Coordenador da Animação Bíblica da Pastoral da Arquidiocese de Aracaju-SE

domingo, 18 de novembro de 2012

Os profetas e as profetisas são pessoas antipáticas




José Lisboa Moreira de Oliveira*


As ciências da religião nos mostram que nas culturas de todos os tempos sempre existiram os chamados grupos liminares. Estes grupos são formados por uma minoria de pessoas que, em alguns casos e ocasiões, chega até a ser reduzida a um indivíduo solitário (1Rs 19,10). Os grupos liminares se colocam no limiar, ou seja, na fronteira entre o real e o ideal. Costumam provocar as culturas, os grupos humanos, as sociedades e as comunidades. Eles, normalmente, chamam a atenção para a necessidade de fidelidade a valores que são pilares das sociedades. Por isso denunciam com veemência os desmandos, a corrupção e o afastamento das comunidades dos seus valores fundamentais. De um modo geral acusam as autoridades e lideranças, inclusive religiosas, responsabilizando-as pelo caos existente.
No judaísmo, no cristianismo e no islamismo esta função foi e ainda é exercida de modo particular pelos profetas e pelas profetisas. São eles e elas que se colocam nas fronteiras e esbravejam contra todas as formas de corrupção dos sistemas políticos e religiosos. Enfrentam as autoridades e apontam seus erros e suas mazelas. Por essa razão os profetas e as profetisas são pessoas antipáticas. Ninguém gosta delas, especialmente aqueles e aquelas que estão no poder. De um modo geral os profetas e as profetisas são perseguidos, caluniados, maltratados, banidos e até mesmo assassinados. São vistos como pessimistas e vaticinadores de desgraças, gente que só enxerga o que não está dando certo, incapazes de ver “as coisas boas”.
No judaísmo o representante clássico deste modelo de profeta é Miquéias, detestado pelo rei de Israel porque nunca profetizava coisas boas, mas somente desgraças (1Rs 22,1-40). Porque era sincero e mostrava a realidade nua e crua, o profeta foi insultado, maltratado e preso. Mas, além dele, se poderia dizer o mesmo de praticamente todos os outros profetas. Será suficiente citar alguns exemplos. Elias, que denuncia o conluio entre falsa religião e poder corrupto; que satiriza e ridiculariza os cantos e as danças religiosas histéricas (1Rs 18 – 19). Isaías, chamado a profetizar dentro do templo, a provocar cegueira, surdez e o embotamento do coração até que as cidades sejam destruídas e os campos devastados (Is 6,8-12). Jeremias, convocado por Javé a postar-se na entrada do templo para denunciar a falsidade da religiosidade do povo (Jr 7,1-28). Amós, que denuncia, rugindo como um leão, a exploração dos pobres pelos ricos, a justiça corrupta, o lucro fruto do roubo e a conivência do sistema religioso com tudo isso. Todos eles sofreram calúnias, perseguição e represálias.
Se nos voltamos para o cristianismo, vemos que ele nasce do sangue derramado do profeta Jesus que se recusou terminantemente a compactuar com a corrupção e os desmandos do poder religioso e civil. Foi preso, torturado e assassinado. Em vinte séculos de história cristã a lista dos mártires, das profetisas e dos profetas assassinados é longa e abarca praticamente todos os períodos. De uma forma geral os profetas e as profetisas do cristianismo sofreram perseguição e até o martírio por parte daqueles e daquelas que pertenciam à própria Igreja.
Em nossa época os profetas e as profetizas escasseiam. São raridades e verdadeiras pérolas preciosas que, de vez em quando, surgem em algum canto da terra. Mas, logo que surgem, são vistos com antipatia, perseguidos, maltratados e até assassinados. A nossa época, a nossa sociedade, as atuais Igrejas, continuam não suportando vozes proféticas. Quando não são caladas
para sempre, elas são abafadas. Aqui na América Latina e Caribe alguns desses profetas e profetisas, ainda vivos e resistentes, são ridicularizados e discriminados. Alguns recebem títulos “honoríficos” como “chorólogos” ou “viúvos e viúvas da Teologia da Libertação”. Grandes profetas, conhecidos internacionalmente, como, por exemplo, Irmã Dorothy, Padre Josimo, Dom Oscar Romero, Dom Hélder Câmara, o Cardeal Martini, José Comblin, Leonardo Boff, Gustavo Gutiérrez, José Antonio Pagola, André Torres Queiruga, são colocados no ostracismo pela oficialidade, desqualificados e até mesmo punidos por sua ousadia e coragem profética. Lembro que José Comblin foi tido, no final de sua vida, como o “gagá da libertação”. Escutei alguém dizendo que o Cardeal Martini, no final da vida, tinha se tornando um “demente” por causa do mal de Parkinson. Por isso passou a falar “bobagens”, como, por exemplo, a afirmação de que a Igreja Católica estaria atrasada em pelo menos 200 anos.
Nenhuma novidade. O autêntico profeta não pode ser tratado de outra forma. Do contrário, seria um falso profeta: “Aí de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas” (Lc 6,26). Neste sentido, os profetas e profetisas de hoje, como aqueles e aquelas de ontem, se sentem bem à vontade quando são rotulados e discriminados pelos que compõem o sistema religioso e político injusto e corrupto. Não que gostem de sofrer. Não são e nem querem ser masoquistas. Porém, no momento em que, motivados pela fé e pela mística, decidem profetizar têm consciência de que o ódio, a calúnia e a perseguição serão companheiros inseparáveis de sua missão profética.
A Bíblia oferece critérios bem precisos para se distinguir o verdadeiro do falso profeta. O falso profeta está sempre a favor do sistema religioso e político. Ele é um árduo defensor dos dogmas, das autoridades religiosas e civis. É bajulador, subserviente, hipócrita, legalista e jamais se afasta dos cânones oficiais. Prediz sempre o sucesso e só fala de coisas boas. Porém, o verdadeiro profeta é autêntico, livre, independente, chama para a realidade e só se curva diante do projeto de Deus. Não tem medo de ser caluniado, perseguido, preso e ridicularizado (1Rs 22,13). O autêntico profeta não se incomoda de ser expulso da religião oficial e de ser tratado como herético e heterodoxo (Am 7,10-17). Ele sabe que tudo isso faz parte do seu ministério profético.
No momento atual os falsos profetas circulam livremente pela grande mídia, inclusive a mídia católica. As câmaras de TV, as páginas das grandes revistas, as colunas dos jornais e as editoras lhes dão sempre espaço. Quando morrem são incensados, exaltados e elevados à condição de heróis do povo. A grande mídia, ligada a grandes grupos econômicos e corruptos, não para de lhes fazer elogios. Tudo como sempre foi. Quanto ao verdadeiro profeta, ele não tem vez. É execrado ou completamente ignorado. Mas sabe-se que sua mensagem não será inútil, pois, mesmo morrendo, como a semente lançada na terra, produzirá frutos que revolucionarão o mundo (Jo 12,24-25). Por isso a vida e a voz dos profetas e das profetisas continuam a alimentar a esperança da humanidade.


[* Filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário. Autor do livro Qual o significado da vocação e da missão, por Paulus Editora]

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”


TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (18.11.12)

Mc 13, 24-32

O texto de hoje nos apresenta diversas dificuldades de interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências veladas a possíveis eventos históricos e referências tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas dos quais desconhecidos por nós. Porém, a sua mensagem central fica clara – o triunfo final do Filho do Homem, mandando por Deus para estabelecer o seu Reino. A linguagem vetero-testamentário de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas em um contexto novo, em que a vinda escatalógica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como prova da vitória de Deus – e a expectativa desta chegada serve como base da vigilância paciente que é recomendada aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatalógico de Marcos.
Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10, Ez 32,7; Am 8,9; Jl 2,10.31; 3,1-5; Is 34,4; Ag 2,6.21; Mas em nenhum lugar no Antigo Testamento se referem à vinda do Filho do Homem – é uma novidade do Evangelho. A lista desses sinais é uma maneira de dizer que toda a citação assinalará a sua vinda final. A descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7,13, mas aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2,10. Este reunir-se dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em Dt 30,4; Is 11,11.16; 27,12. Ez 39,7 etc. – mas nunca no Antigo Testamento é o Filho do Homem que faz esse trabalho.
A segunda parte do texto consiste em uma parábola (vv. 28-29), um ditado sobre a hora do fim (v 30), sobre a autoridade de Jesus ( v. 31) e de novo sobre a hora (v 32). Nem sempre fica claro a que se refere – o que se fala sobre essas coisas” acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o v. 32 que diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola sobre os sinais claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição a parábola da vigilância constante (vv. 33-37). Mas continua clara a mensagem básica – a vitória final do projeto de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas a
certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se desviem do caminho.
Pode parecer confuso o nosso texto – e para nós hoje, de uma certa forma o é. Mas, inserido no contexto do Discurso Escatalógico (referente aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem de esperança e uma advertência. A esperança nasce do fato de que a vitória de Deus é garantida – um elemento fundamental em todo apocaliptismo. A advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos a hora do Filho. Em um mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos, o texto convida nós, os discípulos, à uma atitude positiva que nos leva a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós. Mas também nos desafia para que estejamos sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que muitas vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino de Deus. As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta. “O céu a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.


Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Decadência da Igreja Católica?




Eduardo Hoornaert*

Ouve-se falar hoje, aqui e acolá, em decadência da igreja católica. Efetivamente, há sinais de que essa igreja não esteja mais conseguindo corresponder aos anseios dos tempos em que vivemos, algo que a médio ou longo prazo pode significar o fim do projeto formulado 1500 anos atrás por Agostinho em sua obra ‘A cidade de Deus’, que está na base da igreja católica tal qual a conhecemos hoje. O grande teólogo apresentou, no século V, um dilema: ou você vive e milita na ‘cidade de Deus’, ou pertence à 'massa damnata' marcada pelo 'pecado original'. O projeto funcionou por longos séculos e agora chega ao fim.
O historiador inglês Arnold Toynbee formulou uma lei da história que me parece interessante para a discussão. É a ‘lei do desafio e resposta’, exposta no final de seu livro monumental ‘Um Estudo de História’ (Martins Fontes, São Paulo, 1986). Depois de estudar o surgimento, apogeu e declínio de 21 civilizações, Toynbee conclui: todo projeto humano é formulado para responder a determinados desafios, o que faz com que seja necessariamente incompleto, provisório e passageiro. Nenhum projeto humano pode aspirar à eternidade. Ora, escreve Toynbee, o fato de o papado ter reagido negativamente aos esforços de Cavour para unificar a Itália (início século XIX) marca os primeiros sinais da passagem para a lenta decomposição do sistema católico. O papa deixa de pensar no mundo e pensa em preservar seus privilégios. Isso é fatal.
A questão, hoje, consiste em ver se há condições de reformar o modelo, tornando-o capaz de responder aos desafios do momento. Não se pode responder a tudo, há sempre deficiência, mas penso que a atual situação consiste numa inaptidão generalizada.
Comparemos a atitude do papa diante da unificação da Itália (início século XIX) com os rumos que a França tomou no final do século anterior. A revolução francesa constitui um exemplo paradigmático de um projeto que responde de forma apropriada aos anseios do tempo. Dai seu sucesso. Os povos querem ‘liberdade, igualdade e fraternidade’, e a revolução responde positivamente. Uma postura totalmente diferente é a do papa, que vai assumindo sempre mais posturas reacionárias.
Toynbee vê nessa recusa do papa o início da decadência do sistema católico. Por encarnar o poder supremo por tantos séculos, o papado não tem mais sensibilidade diante do que se passa na realidade e isso constitui um sinal de decadência. Seguindo o raciocínio de Toynbee, não se sabe o que pode acontecer com a igreja católica. É possível que ela mude totalmente de feições ou mesmo desapareça do cenário histórico. De qualquer modo, aqui não se trata de um drama. Os projetos passam, a história passa. Os projetos humanos são todos provisórios.
O sonho de Agostinho deu origem a um grande projeto, que moldou o Ocidente. Mas ficou na contramão do desejo de liberdade hoje se manifesta de mil maneiras. Os tempos mudam e isso é bom.
O importante consiste em apoiar as energias positivas que atuam dentro do catolicismo, da mesma forma em que se devem apoiar as forças vivas existentes no candomblé, na igreja universal do reino de Deus, no pentecostalismo e em todos os projetos que procuram trabalhar para melhorar a vida da humanidade.
Enquanto o papa se afasta da vida vivida e se recolhe em seu 'Apartamento' e enquanto o vaticano se vê enredado em escândalos, os cristãos conscientes não enxergam nada de trágico em tudo isso. Só os que gostam de montar uma tragédia grega de paixões pelo poder, intrigas, hipocrisias é que comentam o tempo todo esses noticiários.
Os mais conscientes preferem ocupar-se de outros assuntos. Eles pensam no real drama de nosso mundo de hoje. Hoje, o drama é outro, o desafio é outro. O que importa é que o cristianismo signifique algo para os 50% da população mundial que vive curvada sob pobreza e miséria. No planeta em que vivemos, 25 mil pessoas morrem por dia de inanição e 16 mil crianças de fome. 852 milhões de pessoas passam fome. As fortunas das três pessoas mais ricas do mundo é superior ao PIB de 48 países. Os 5 % mais ricos ganham 114 vezes mais que os 5 % mais pobres. As pessoas que dormem na rua, as 864 favelas do Rio, as 20 a 25 pessoas que morrem por dia de forma violenta, no Rio, e que nem merecem mais uma menção no noticiário. Isso dá vergonha, isso é o drama. Que entre as 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba), eis o que dá vergonha. Que mais de 10 milhões de brasileiros vivem com menos de 39 reais por mês e que a Globo nunca dá esses números, eis a vergonha, eis o apelo para o cristianismo. O drama é que 10% das pessoas que vivem neste país detêm 75% da riqueza que o país produz, que 5 mil famílias (1%) controlam 45% da riqueza do país.



* Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo