"CHIQUE É CRER EM DEUS"
Investir em conhecimento pode nos tornar sábios... Mas, Amor e Fé nos tornam humanos!
Coisas que todos os catequistas novatos deveriam saber
Catequese é algo fundamental para a Igreja e não se pode improvisar. Por isso, aqui vão algumas coisas básicas que você não pode esquecer.
O catecismo responde.
Respostas sobre dúvidas sonbre o Sacramento do Batismo
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Especial sobre Quaresma
Encontre aqui tudo que já publicamos sobre esse tempo.
sexta-feira, 29 de março de 2013
DOMINGO DE PÁSCOA (31.04.13)
Jo 20, 1-9
“Ele viu e acreditou”
Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um
de acordo com as suas tradições e visão teológica. Mas, certos elementos são
comuns a todos: o fato do túmulo vazio, que as primeiras testemunhas eram as
mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua
ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar), e que uma delas
era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham
lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram
mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela!
Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das
discípulas na Tradição - e a Igreja sofre até hoje as consequências.
Fica claro que ninguém esperava a Ressurreição. Para os Doze, especialmente, a
Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o
fato de que todos eles traíram Jesus (por revolta, por dinheiro, ou por
covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo.
Nesse meio, chegou Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio -
e ela, naturalmente, pensava que o corpo tivesse sido roubado. Ressurreição -
nem pensar!
No
nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais)
e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos Doze, conforme os
maiores exegetas) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão
histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade
apostólica (representada por Pedro). Pois, o Discípulo Amado espera por Pedro
(reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo
Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar
Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem
olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!
Como na história dos Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-36), o texto demonstra que
a nossa fé não pode estar baseada em um túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que
fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - é a experiência da
presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos
de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!
Hoje
em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na
vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra,
violência, corrupção endêmica, pobreza exagerada, terremotos, desastres e
tragédias como a de Santa Maria (RS) poucas semanas atrás, etc! Só uma experiência
profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos
sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o
mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado! Nós todos somos
“discípulos amados”, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Rm
8), mas será que somos “discípulos amantes”? Será que amamos a Jesus e ao
próximo? Lembramos que o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas
uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor
consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus; mas, foi Ele que nos
amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se
Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4,
10-11).
Que a mensagem da
Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força,
especialmente quando a Cruz pesar muito em nossas vidas! Aleluia!
Tomaz
Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
sexta-feira, 22 de março de 2013
DOMINGO DE RAMOS (24.03.13)
“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”
Lucas 19,29-40
* Como seria impossível
fazer jus ao Evangelho da Paixão em uma reflexão tão curta, refletiremos sobre
o Evangelho da procissão.
Quase
não há comunidade católica no Brasil que não comemore hoje, com muita alegria,
a entrada de Jesus em Jerusalém. São organizadas procissões, o povo abana
ramos, se celebram encenações do evento. Pessoas que dificilmente pisam em uma
igreja nos domingos comuns, hoje fazem questão de não perder a procissão.
Porém, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, é importante estudar
o que significava este evento para Jesus, e para o evangelista.
Dificulta
o nosso entendimento da passagem a nossa pouca familiaridade com o Antigo
Testamento. Cumpre relembrar um trecho do profeta Zacarias: “Dance de alegria,
cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei
está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num
jumentinho, filho duma jumenta... Anunciará a paz a todas as nações, e o seu
domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9,
9-10). Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo
conhecido como “os pobres de Javé”, que esperavam a chegada do Messias
libertador. Nesse grupo encontravam-se Maria e José, e os discípulos de Jesus.
Foi dentro desta espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias traçava as
características do messias - seria um rei, “justo e pobre”, não de guerra, mas
de paz! Viria estabelecer uma sociedade diferente da sociedade opressora do
tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós) - onde os poderosos e violentos
oprimiam os pobres e pacíficos! Seria uma sociedade onde, entre outros
elementos, a economia estaria a serviço da vida! Um rei jamais entraria numa
cidade montado em um jumento - o animal do pobre camponês, mas num cavalo branco
de raça! Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura de Zacarias, e
se identificou com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!
Por
isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em
Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um Governante dos
nossos tempos - com pompa, imponência, e demonstração de poder e força. Na
verdade, houve uma procissão assim em Jerusalém no mesmo dia da entrada de
Jesus – a entrada do Procurador romano, Pôncio Pilatos, chegando com toda a
pompa de Cesaréia Marítima, com uns cinco mil soldados, para ostentar o poder
repressor do Império. À tarde, pelo porta oriental, Jesus fez o contrário!
Entrou como o servo de Javé, na simplicidade que é própria de Deus e dos seus
enviados. Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus” - e realmente foi,
mas como triunfo do Deus que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor! Nada
mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e
pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome da Igreja e do
Evangelho de Jesus! O poder e a pompa seduzem – devemos ficar eternamente
gratos ao Papa Bento XVI pelo desapego que ele demonstrou em renunciar, pelo
bem da Igreja. Uma atitude digna de um verdadeiro discípulo do Mestre do
Domingo de Ramos!
O
texto convida a todos nós a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus - mas,
será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes,
o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos um outro Jesus -
poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme
o mundo entende esses termos? Essa semana foi o ponto culminante de toda a vida
e missão de Jesus - das suas opções concretas em favor dos oprimidos, do seu
desafio à religião oficial que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das
consequências políticas e econômicas da sua proposta de uma sociedade justa e
igualitária, manifestação concreta da chegada do Reino de Deus. Tudo isso levou
os poderosos, romanos e judeus, a tramarem a sua morte. É importante lembrar
que a paixão e morte de Jesus foram consequência da sua vida - é impossível
entender o que significa a Semana Santa sem ligá-la com o resto da vida de
Jesus e com a sua proposta para a sociedade e para os seus seguidores. Jesus
não morreu - foi morto porque incomodava, como continua a incomodar ainda hoje
os que continuam com o sistema opressor que é a expressão do anti-Reino, mesmo
quando disfarçado com discurso religioso, como se fazia no Templo.
Nos
adverte um canto usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei,
que fosse forte, dominador. E por isso não creram n’Ele e mataram o salvador!”
Realmente acreditamos no rei dos pobres e oprimidos, ou só fazemos um folclore
no Dia de Ramos, bonito, mas totalmente desvinculado da mensagem verídica e
profunda do profeta Zacarias e do evangelho de hoje?
Tomaz
Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
sexta-feira, 15 de março de 2013
QUINTO DOMINGO DA QUARESMA (17.03.13)
“Quem não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”
Jo 8, 1-11
Essa
história parece muito mais semelhante aos temas do Evangelho de Lucas do que do
o Evangelho do Discípulo Amado. De fato, não aparece nos manuscritos mais
antigos de Lucas, e só aparece pela primeira vez em versões do século terceiro.
Por isso, a maioria dos estudiosos acha que originalmente esta história
circulava nas comunidades como uma tradição independente. O copista que a
inseriu talvez fizesse por achar que ilustrasse duas frases do Quarto
Evangelho: “Eu julgo a ninguém” (Jo 8, 15) e “Quem de vocês pode me acusar de
pecado?” (Jo 8, 46). O tema do perdão de uma mulher pecadora é tipicamente
lucano (Lucas). Alguns manuscritos situam esse texto no Evangelho de Lucas
durante as controvérsias da Semana Santa - o que parece ser um contexto mais
adequado.
O
problema apresentado a Jesus pelos fariseus é semelhante àquele do imposto em
Lc 21, 27-38. A Lei judaica prescreveu a pena de morte para uma mulher casada
pega em adultério (Dt 22, 23-24). Mas, segundo João 18, 31, os romanos tinham
retirado dos judeus o direito de condenar alguém à morte. Portanto, se Jesus
dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei civil dos
romanos; se ele negasse esta pena, estaria contra a lei religiosa mosaica. É
uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César, ou a questão sobre o
divórcio em Mt 19, 3-9. Que os seus interlocutores não se interessam pela Lei
se manifesta pelo fato de só acusarem a mulher e não o seu parceiro! Uma
atitude machista tão comum ainda na nossa sociedade.
Não
se esclarece o que foi que Jesus escreveu no chão. Alguns autores veem uma
referência a uma frase em Jeremias: “Aqueles que se afastam de ti terão seus
nomes inscritos na poeira, porque abandonaram Javé, a fonte de água viva” (Jr
17, 13). Assim, seria uma indicação que os verdadeiros culpados são aqueles que
se davam o direito de condenar a mulher.
Perguntando
da mulher se os seus acusadores não a tinham condenado, Jesus deixa claro que
Ele não se identifica com eles. Ele não veio para condenar, mas para salvar!
Por isso, a mulher está livre para ir - mas não para pecar de novo!
O
texto ilustra mais uma vez o recado central que vimos no Evangelho do último
Domingo - Deus é um Deus de misericórdia, e não de condenação. Ele condena o
pecado, o mal, mas não a pessoa. Como em Lucas 15, 1-2, também no texto de
hoje, as pessoas que mais deviam se preocupar em manifestar o rosto misericordioso
do Pai, se preocupavam mais em condenar, a partir de um legalismo que
desconhecia a misericórdia. Jesus, do outro lado, valoriza a Lei (pede que a
mulher não continue a pecar), mas tem compaixão diante da fraqueza humana.
Aliás, é notável que, nos Evangelhos, Jesus nunca é duro ou rígido com as
pessoas que manifestam na sua vida sinais da fraqueza humana, mas é contundente
com os que não têm compaixão nem misericórdia, e que escondem o verdadeiro
rosto de Deus através do seu legalismo e auto-suficiência.
Quantas
vezes nas Igrejas - até hoje - se manifesta muito mais a dureza de uma
mentalidade legalista do que a compaixão de um Deus que é “rico em
misericórdia?” Neste tempo quaresmal, preocupemo-nos em sermos manifestação do
Deus verdadeiro, misericordioso e compassivo, a exemplo de Jesus, que soube
distinguir bem entre o pecado e o pecador. “Nem eu te condeno, vá e não peques
mais!” Lembremos das palavras sábias e profundas do Documento da Aparecida no seu número 147:
“O/A
discípulo/a-missionário/a há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o
amor misericordioso do Pai, especialmente para os pobres e pecadores”. Jesus
nos dá o exemplo no texto de hoje.
Tomaz
Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
sexta-feira, 8 de março de 2013
QUARTO DOMINGO DA QUARESMA (10.03.13)
“Seu irmão estava morto e tornou a viver”
Lucas 15, 1-3; 11-32
O
Evangelho de Lucas prima pela sua ênfase sobre a misericórdia de Deus. Se fosse
para classificar em uma só palavra o rosto de Deus em Lucas, poderíamos sem
hesitação assinalar “misericórdia”. Talvez nenhum capítulo salienta essa
convicção tanto como o capítulo 15. A parábola aqui relatada está entre as mais
conhecidas da Bíblia - geralmente chamada “O Filho Pródigo” (‘pródigo’
significa ‘esbanjador’). Devemos ter um pouco de cuidado com esse título, pois
já sugere que a figura central da parábola é o Filho Pródigo, o que não
necessariamente é a interpretação mais adequada!
Para
sermos fiéis ao evangelho, devemos interpretá-lo dentro do seu esquema
teológico e literário. Para isso, temos que dar muita atenção aos primeiros três
versículos; pois, nos dão o motivo pelo qual Jesus contou as três parábolas do
capítulo, uma chave valiosa de interpretação. São como um gancho sobre qual se
pendura o resto do capítulo: “Todos os cobradores de impostos e pecadores se
aproximavam de Jesus para escutá-lo. Mas, os fariseus e os doutores da Lei
criticavam a Jesus, dizendo: “Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!”
(vv. 1-2). Depois vem a chave de interpretação: “Então Jesus contou-lhes esta
parábola” (v. 3). Ou seja, Jesus contou as parábolas deste capítulo porque os
chefes religiosos o criticavam por associar-se com gente de má fama! Então, a
chave de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada pelo
ensinamento de Jesus. O problema de fundo não é só a prática de Jesus, mas a
experiência de Deus. Para os oponentes de Jesus, Ele não pode ser de Deus,
agindo assim, pois Deus não acolhe pecadores. Para Jesus, Deus é exatamente o
oposto – Ele é compaixão e misericórdia, e, por isso, corre atrás dos
pecadores. Quantas vezes, falando de Deus, nós cristãos demonstramos um Deus
como o Deus dos escribas e não o Deus de Jesus! Assim também a parábola nos
interpela hoje!
Podemos
ler este texto a partir do “filho perdido”, ou do “pai”, ou do “irmão mais
velho”. O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo” (Pródigo
significa “esbanjador”). Assim, ressaltaria o processo de conversão - sentir a
situação perdida, decidir a pedir reconciliação, ser aceito pelo Pai, reativar
os relacionamentos perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do
texto como tal - mas diante dos primeiros dois versículos do capítulo, talvez
não a interpretação primária que Lucas quisesse dar.
Outra
possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida, também válido.
Assim, o pai representa o próprio Deus, que em primeiro lugar, respeita a
liberdade de decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” da sua
vida; depois, não espera a volta do “pródigo”, mas corre ao seu encontro, numa
atitude não “digna” de um fidalgo oriental idoso, pois o pai está preocupado
mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e se alegra com a volta de quem
estava morto! Mais uma vez, uma leitura mais do que aceitável!
Mas,
o contexto do capítulo, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura
diferente - a partir do irmão mais velho. Pois, Jesus conta a parábola para
contestar a atitude dos fariseus e doutores da Lei, que o reprovam, porque Ele
acolhe os pecadores! Então, o filho mais velho é a imagem dos fariseus - “gente
boa”, fiel na observância da Lei, mas, cujos corações estão fechados, ao ponto
de serem incapazes de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora
observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a atitude deles contradiz
claramente a atitude de Deus, demonstrada pela ação do pai misericordioso! Essa
diferença de atitude se resume claramente nos termos que ambos usam,
referindo-se ao filho mais moço. Enquanto o filho mais velho o chama de “este
teu filho” (v. 30), o pai fala “este teu irmão” (v. 32).
Aqui
Jesus quer questionar todos nós que somos “praticantes”. Somos capazes de
reconhecer a nossa própria fraqueza e miséria espiritual, como fez o “pródigo”?
Somos capazes de correr ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou
somos como o irmão mais velho - “gente boa”, gente de “observância”; mas, gente
incapaz de ter um coração de misericórdia, de alegrar-nos com a volta ao estado
original, de um irmão ou uma irmã perdidos?
Podemos
até dizer que este capítulo de Lucas é o coração do Evangelho. Pois Deus, o
Deus de Jesus e o de Lucas, é o Deus que não se alegra com a perda de quem quer
que seja, mas com a volta do pecador. É o Deus que se encarnou em Jesus de
Nazaré, para salvar quem estava perdido. É o Deus da misericórdia e do perdão.
Como traduzimos esta visão de Deus em nossa vida?
Tomaz
Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
sexta-feira, 1 de março de 2013
TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA (03.03.13)
“Se vocês não se converterem, vão morrer todos do
mesmo modo”
Lucas 13, 1-9
Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas; e, ensina os
discípulos que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações
humanas, mas que também tem exigências para quem quer segui-Lo. Ele nos convida
à conversão, antes que seja tarde demais!
O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas, referente a um fato
ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus durante o
sacrifício no Templo (não temos informações sobre esse acontecimento de outras
fontes). Na época, sofrer desgraças como doença, pobreza ou morte prematura,
era visto como castigo de Deus por ser pecador. Podemos lembrar a pergunta
feita a Jesus, sobre o homem cego de nascença, no Evangelho de João: “Os
discípulos perguntaram: Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego?
Foi ele ou os pais dele?” (Jo 9, 2). É a “Teologia da Retribuição”, onde Deus premia
ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor, segundo o que o sistema
vigente entende por mérito. Assim, se anula a gratuidade e a bondade
misericordiosa de Deus, e os excluídos da sociedade são vistos como culpados do
seu próprio sofrimento. Infelizmente, essa teologia, tão anti-evangélica, está
muito presente hoje, por exemplo quando a prática religiosa, ou o dízimo, se
entendem como “investimento” para receber retornos de Deus. É claro que também
essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante, pois a sua
riqueza é explicada como proveniente da bênção de Deus, e não como resultado da
exploração e/ou de um sistema econômico injusto, como nos demonstram muitos
documentos do ensino social da Igreja. Jesus não autoriza tal interpretação, e,
falando também de um outro acidente em Jerusalém que matou dezoito (v. 4),
mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos podem servir
para que todos pensem na insegurança da vida, e na urgência de conversão,
enquanto ainda há tempo! Todos nós precisamos estar preparados para enfrentar o
julgamento de Deus, através de uma vida digna de discípulos.
Os versículos 6-9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes, as parábolas
podem ter mais do que uma explicação. A parábola de hoje tem dois lados - como
parábola de compaixão e como parábola de crise! Na primeira interpretação, Deus
sempre dá ao pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto)
mais uma chance; assim, toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia
e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com os acomodados e
desligados entre os discípulos, que só “esgotam a terra” (v.7), ou seja, estão
na comunidade como peso morto, sem contribuir nada a ela. Tais pessoas (nós,
muitas vezes), devem converter-se para dar os frutos de uma vida do
discipulado, ou correr o risco de serem cortados da vinha do Senhor!
Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre a nossa vida cristã, como
indivíduos e como participantes de uma sociedade cujas estruturas muitas vezes
também não estão de acordo com a vontade de Deus. É claro que todos nós somos
pecadores, e então, em permanente necessidade de conversão. A parábola nos
anima diante das nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada, pois Deus é
compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho. Do outro lado,
a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos na verdade os caminhos
de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras sem frutos”, buscando o
“adubo” (v. 8) da oração, da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da
Fraternidade, para que voltemos a produzir os frutos devidos a verdadeiros/as
discípulos/as de Jesus.
Tomaz
Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Cronograma de atividades: Março e Abril de 2013
Organização das atividades catequéticas nas Dioceses e Arquidioceses e inicio dos encontros catequéticos.
ABRIL
19 a 21 - Reunião da Coordenação do Regional NE3 - em Salvador
|
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA (24.02.2013)
“Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o
que ele diz!”
Lucas 9,
28-36
O nosso
texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de
Cesaréia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento:
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me
siga” (9, 23). Começando a passagem com as palavras: “oito dias após dizer
essas palavras”, Lucas quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior
sobre o seguimento de Jesus até a cruz.
O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito
caro a Lucas - o fato que Ele era um homem de oração. Neste momento Ele “subiu
à montanha para rezar” (v. 28). Durante a oração, aparecem Moisés e Elias,
símbolos da Lei e dos Profetas, duas das figuras mais importantes do Antigo
Testamento. Assim, Lucas mostra que Jesus está em continuidade com as
Escrituras, isso é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de
Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e
perseguidos no seu tempo - Lucas aqui vislumbra o destino de Jesus, de ser
rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono,
faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três
tendas: uma para ti, uma outra para Moisés e outra para Elias” (v. 33). Claro,
era bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das
dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não quereria? Mas não era uma
sugestão que Jesus pudesse aceitar. Terminado o momento de revelação, “Jesus
estava sozinho” e no dia seguinte “desceram da montanha” (v. 37). Por tão
gostoso que seja ficar no Monte Tabor, é preciso descer para enfrentar o
caminho até o Monte Calvário! A experiência da Transfiguração está intimamente
ligada com a experiência da Cruz! Quem sabe, talvez a experiência do Tabor
desse a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorida do
Calvário!
Aplicando o texto e a sua mensagem a todos os
cristãos, podemos deduzir que todos precisam subir o Monte Tabor para serem
transfigurados, para depois descerem para “lavar os pés” dos irmãos e irmãs!
Todos nós, seja qual for a nossa vocação, precisamos de momentos de oração
profunda, de união especial com Deus. Isso torna-se cada vez mais importante no
mundo atual de ritmo quase frenético, de estresse e correria. Temos que
descobrir como criar espaços de tempo para respirarmos mais profundamente a
presença de Deus, para renovarmos as nossas forças e o nosso ânimo. Estas
experiências não devem ser “intimistas”; pelo contrário, devem aprofundar a
nossa fé e o nosso seguimento, para que possamos seguir o exemplo d’Aquele que
lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus
pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14).
Esse trecho pode nos ensinar a valorizar os
momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se
formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de
“Calvário”! Somos fracos demais para aguentar esta experiência contando somente
com as nossas próprias forças e recursos humanos - por isso, busquemos forças
na oração, na Palavra de Deus, na meditação - sempre para
que possamos retomar o caminho, como fizerem Jesus e os três discípulos! Para
os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor
possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho, o Escolhido.
Escutem o que ele diz!” (v. 35). Façamos isso, e venceremos os nossos
Calvários!- - -
Pe. Tomaz Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA (17.02.13)
Lucas
4,1-13.
“Você
adorará o Senhor seu Deus e somente a Ele servirá”
O texto
expressa a luta interna de Jesus, que na realidade se deu ao longo da sua vida
pública, para discernir o caminho a seguir, depois de assumir a sua missão no
batismo. Jesus era totalmente humano, e assim enfrentava sempre as tentações de
seguir o caminho de um messianismo falso, que não fosse o caminho do Servo de
Javé. A experiência de Jesus é como a nossa; entre o nosso compromisso com o
projeto de Deus e a sua vivência prática existem muitas tentações!
Jesus
estava “repleto do Espírito Santo”, e era “conduzido pelo Espírito através do
deserto”. O Espírito Santo não o conduz à tentação, mas é a força sustentadora
d’Ele durante as suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Lucas
ensina às suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio nos
momentos difíceis da vivência da sua fé!
As
tentações são as mesmas que enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje! Primeiro
Jesus é tentado para mandar que uma pedra se torne pão. Aqui é a tentação do
“prazer” - logo que enfrenta sofrimento e sacrifício por causa da sua missão,
Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo
que prega a satisfação imediata dos nossos desejos em uma sociedade que cria
necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma
sociedade de individualismo, onde a regra é “se quiser, faça!”, onde o
sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como ladainha dos
perdedores! Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (v. 4). Vivemos
de pão, mas, não só! Jesus não é contra o necessário para viver dignamente.
Mas, salienta que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a
busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a
solidariedade com os sofredores. Não faz contraste falso entre bens materiais e
espirituais - precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena! Jesus
desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens, como
os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos!
A segunda tentação pode ser visto como a do “ter”.
Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do
neo-liberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente a televisão traz
para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais”, e que
não importa “ser mais”! A tentação vem em forma atraente - até a Igreja pode
cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em
favor da missão, garantirá uma atuação mais evangélica. Somos tentados a não
acreditar na força dos pobres, das “pessoas comuns”, dos leigos/as, dos
“fracos” aos olhos da sociedade, ou seja, de não seguir o caminho do
carpinteiro de Nazaré. Jesus também enfrentou esta tentação – Ele, que veio
para ser humano com a humanidade, pobre com os pobres, para mostrar o Deus que
opta preferencialmente pelos marginalizados, é também tentado a confiar nas
riquezas! Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material
e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o
Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).
A
terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente
na história das Igrejas e dos cristãos. Quantas vezes as Igrejas confiavam mais
no poder secular do que na fragilidade da cruz, para “evangelizar”. Quanta
aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga! Ainda hoje
enfrentamos esta tentação - não de ter poder para servir, mas de confiar no
poder deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim
contradizendo o que Paulo afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os
homens” (1Cor 1, 25), e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para
confundir o que é forte” (1Cor 1, 27). Jesus, que veio para servir e não para
ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que
clarear a sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor
seu Deus”.
Realmente,
podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as do mundo moderno - o ter,
o poder e o prazer! Todas as coisas são boas em si, mas altamente destrutivas
quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas! Jesus teve que enfrentar o que
nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar
da nossa vocação de discípulos/as-missionários/as. O texto nos coloca diante da
orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e
somente a ele servirá” (v. 8)
Pe. Tomaz Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Renúncia de Bento XVI
Depois de sete anos ocupando a cadeira papal, atuando como administrador pontifício e sendo ponto de unidade da Igreja Católica Apostólica Romana, o Papa Bento XVI, de forma livre e consciente, anuncia sua renúncia ao cargo a ele confiado. Foi decisão com coragem e preocupado com a efetiva missão da Igreja no mundo, que não pode ser prejudicada por causa de sua impossibilidade física, sua saúde e sua idade avançada.
Não diria que fomos pegos de surpresa, porque isto pode ocorrer com qualquer autoridade. No caso de Bento XVI, de identidade alemã, intelectual e muito coerente em suas ações, uma decisão desta não é novidade. Aliás, já aconteceram outras renúncias na história dos papas. A última foi do papa Celestino V, na data de 13 de dezembro de 1294, tendo como causa sua humildade e saúde.
Agora os trâmites serão normais. Ficando vaga a sede de Pedro, depois de 28 de fevereiro próximo, os Cardeais vão se reunir em Conclave para eleger o sucessor de Bento XVI. Da nossa parte fica a expectativa da escolha de alguém com capacidade para dar os passos necessários que a Igreja precisa. Por isto devemos estar em atitude de oração, de súplica a Deus para que a escolha seja eficaz.
A grande preocupação que temos é em relação à Jornada Mundial da Juventude, em julho próximo, no Brasil, mas há tempo suficiente para a escolha do novo papa que, com certeza, estará cumprindo essa agenda histórica realizada pelos últimos papas em relação aos jovens. Portanto, não devemos desanimar nos trabalhos de preparação da juventude em direção à Jornada no Rio de Janeiro.
As mudanças são sempre positivas para a vida da Igreja. Elas causam, no primeiro momento, espanto, dificuldades, crises, mas geram vida nova e novo dinamismo. As pessoas são diferentes e têm modos de agir próprios, proporcionando enfrentamentos com novas iniciativas. Bento XVI, certamente, pensou nisto ao anunciar sua renúncia. Teve em vista o bem da Igreja, que não poderia ser dificultado por causa de suas deficiências.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
FONTE: Catequese e Bíblia
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
QUINTO DOMINGO COMUM (10.02.13)
Lucas 5,
1-11
“Senhor,
afaste-te de mim, porque sou um pecador”
A porta
de entrada desse texto, que nos traz a versão Lucana da “pesca milagrosa” (Jo
21, 1-14) é o primeiro versículo: “Certo dia, Jesus estava na margem do Lago de
Genesaré. A multidão se apertava ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.”
Lucas deixa bem claro que o motivo de tanta gente buscar Jesus foi para “ouvir
a Palavra de Deus”. Não para ver milagre, não para receber esmola, nem cura,
mas simplesmente para “ouvir a Palavra de Deus”. E só se busca o que é
agradável, o que faz bem!
A
Palavra de Deus encorajava a multidão, fazia com que as pessoas se sentissem
amadas, aceitas, valorizadas. A Palavra de Deus era realmente “Boa Notícia”
para os humildes e sofridos. Nada deve - ou pode - substituir esta Palavra. A
Igreja ainda corre atrás do prejuízo de ter privado o povo durante séculos do
alimento da Palavra. O último Sínodo dos Bispos tratou do tema significante “O
Lugar da Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”, e temos em mãos a
Exortação Pós-Sinodal “Verbum Domini”
do Papa Bento XVI. Felizmente muitas dioceses já têm os seus Planos de
Evangelização com destaque para a formação bíblica do povo. Cumpre fortalecer
cada vez mais a animação bíblica de toda a Pastoral. Resta o desafio de
criarmos ferramentas para que isso realmente aconteça. Nenhuma palavra humana,
por mais eloquente ou edificante que seja, pode igualar-se à Palavra de Deus.
Oxalá não repitamos os erros do passado! Que saibamos ver a ação do Espírito
Santo na grande procura da Bíblia entre as comunidades, especialmente entre os
mais pobres. Devemos levar a sério o que proclamou o Concílio Vaticano II no
seu documento dogmático Dei Verbum:
“A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma como o próprio
Corpo do Senhor” (DV 21). Infelizmente, nem sempre se verifica a prática dessa
declaração!
Terminada
a pregação, Jesus pede que Simão “avance para águas mais profundas” (v. 4),
para lançar as redes. Pois, barca à beira-praia pesca nada! Como é tentador
para nós - a Igreja, as comunidades, os indivíduos - ficarmos seguros nas águas
rasas que não apresentam perigo, e tampouco frutos! Se quisermos ser realmente
“pescadores de homens” (v. 10) teremos que enfrentar as águas profundas da
vida, com todas as incertezas e inseguranças que isso acarreta. O mundo
globalizado pós-moderno urbanizado exige novas respostas pastorais, como tão
bem reconheceu o Documento de Aparecida.
Não é mais possível continuarmos nas nossas comunidades somente com uma
“pastoral de manutenção”, mas precisamos ousar dialogar com novas situações e
com o pluralismo do nosso mundo. Muito mais cômodo é ficar nas águas calmas e
tranquilas, sem risco – mas, fazer assim seria trair a nossa vocação batismal.
Poderemos nos perguntar - o que quer dizer para mim, para a minha comunidade,
movimento ou pastoral, “avançar para as águas mais profundas”?
Simão
não se mostra muito entusiasmado diante do convite do Senhor, pois ele, pescador
profissional – sabia muito bem que não se lançavam as redes naquela hora do
dia. Parece loucura. Assim, muitas vezes é hoje – o que Jesus nos pede parece
loucura aos olhos da sociedade consumista e excludente. Pois, como diz Paulo “a
loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais
forte do que os homens” (1Cor 1, 25). Mesmo assim, Simão lança a barca “em
atenção à Sua palavra” (v. 5). Aqui está o nó da questão - a atenção à Palavra
de Deus. O Salmo 95 (94), 7 reza: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” -
pois Deus nos fala todos os dias. Uma fala exige atenção para que seja captada.
Deus nos fala sempre - mas, se não tivermos as antenas ligadas, não ouviremos.
E continuaremos acomodados nas águas rasas e tranquilas, enquanto a missão
exige que nos lancemos para águas profundas.
Pedro
reage já: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” (v. 8). Como a luz
cria a sombra, a proximidade da santidade põe em relevo o pecado humano. O que
parece normal, segundo critérios humanos, fica claramente negativo diante dos
critérios do amor divino! Mas, Jesus não atende o pedido de Pedro - foi porque
somos pecadores que Ele veio! Pelo contrário, fala para Pedro não ter medo -
nem da sua fraqueza, nem da sua natureza pecaminosa, nem das suas falhas. Jesus
o chama tal como ele é. Ele nos ama, não como gostaríamos de ser, mas como
somos de fato. Não devemos ter medo da nossa realidade humana e pecadora, pois
todos nós carregamos “um tesouro em vaso de barro” (2Cor 4, 7), mas podemos caminhar
com confiança porque “se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós?” (Rm
8, 1). Somos chamados a segui-Lo como somos. Porém, isso não pode nos acomodar,
pois o Evangelho deixa claro que quando os apóstolos foram chamados, deixaram
tudo para segui-Lo. O seguimento de Jesus sempre exige que deixemos algo. Resta
perguntar a nós mesmos: “O que é que o seguimento de Jesus exige que eu deixe,
neste momento na minha caminhada de discípulo/a”?
Pe. Tomaz Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br





